Existe em Portugal uma diversidade patrimonial extraordinária. Sendo nós um povo viajante que se inspirou em diversas culturas, ao longo de centenas de anos, é pois natural que tendências várias de expressão, e propostas estéticas, se manifestem nos tesouros arquitectónicos, civis, religiosos e militares, representados um pouco por todo o país.
Propomos então entre tantas escolhas, visitar e descobrir algumas vilas e centros históricos, que permitam, nem que seja um vislumbre, do que de mais interessante representa a nossa cultura e que esse passeio nos dê o entusiasmo de sentir e interpretar uma identidade que nos é própria e nos caracteriza. Viajar até às raízes do nosso sangue lusitano, às fundações de Portugal.
Guimarães foi classificada como Património da Humanidade. Visitar a cidade é um permanente fascínio devido à diversidade histórica e cultural. Antes de entrar no centro histórico, pode subir à colina que domina o horizonte para visitar o velho Castelo e a capela onde se diz que D. Afonso Henriques foi baptizado, e o Paço dos Duques de Bragança, hoje um museu que pode ser visitado.
É no centro medieval de Guimarães que se esconde a verdadeira alma da cidade. Pequenas ruelas sombrias, casas quinhentistas, tabernas, restaurantes, clubes populares dão cor e reboliço à vida que apesar de tudo é bastante pacata por aqui.
Partindo do Largo do Toural, são vários os locais de visita obrigatória: a Igreja e a capela de S. Francisco típicos do barroco português, o Paço Ducal, a Capela da Senhora da Guia, e sobretudo o Museu Alberto Sampaio. Foi aqui que a Condessa Mumadona fundou um convento no séc. X onde mais tarde funcionou a Colegiada. O claustro, magnífico, liga as salas e a Igreja da Oliveira, e aqui pode ver uma colecção de ourivesaria religiosa de grande beleza e valor histórico, assim como imagens em madeira e pinturas do séc. XVI. A visita pode incluir uma viagem de teleférico até ao Parque da cidade e ao Santuário da Penha.
A caminho de Viana, pode ir sempre visitar os centros históricos de Barcelos e Braga.
Situada na margem sul do rio Lima, Viana do Castelo é uma cidade de grande beleza com um centro histórico rico em património, e também artesanato, filigrana e uma gastronomia que reconforta os estômagos mais exigentes.
Pode começar um passeio pela Praça da República, ponto de visita obrigatória, com os antigos Paços do Conselho de traços góticos e o piso térreo com arcadas onde antigamente se vendia o pão, enquanto os vereadores se reuniam no andar de cima. A praça e o belíssimo chafariz de 1559, são enquadrados pelo antigo Hospital e Consistório da Misericórdia, ambos já uma transição para o barroco. Pequenas ruas e vielas medievais vão revelando segredos. Uma capelinha do séc. XVII revestida de belos azulejos, a Sé, a Casa de João Velho, e o Forte da Barra, entre muitos outros pontos de interesse. Cidade de festas, onde se destaca a festa de Nossa Senhora da Agonia que dura durante três dias, com carros alegóricos e grande animação, e a feira semanal à sexta feira junto das muralhas do castelo, que contribui para o reboliço e alegria do povo e visitantes.
Para dormir, e conhecer mais algum do património da região, tem várias casas de turismo de habitação à sua escolha.
Chegamos então a Ponte de Lima, a antiga Forum Lumicorum dos romanos. A vila habitada desde tempos imemoriais parece uma terra encantada.
Com foral desde 1125, esta é a vila mais antiga de Portugal, com foral dado por D. Teresa. Mais tarde, em 1339, no reinado de D. Pedro I, foi acrescentada uma ponte, e toda a Vila foi cercada por uma muralha restando hoje a Torre da vigia ou de S. Paulo e a torre da cadeia junto à porta nova que é hoje uma galeria de arte. No largo da Praça de Camões, o chafariz barroco do séc. XVI. desenha uma sombra alongada até ao café Havaneza. Já lá vão os tempos de D. Sebastião em que o chafariz servia de apoio às águas da Vila e os aldeãos tinham de pagar uma coima sobre o azeite para dar de comer aos animais. Ponte de Lima transborda de hospitalidade, e tem uma personalidade e uma riqueza arquitectónica invulgares. Na zona antiga as ruas estreitas obrigam a parar para admirar fachadas góticas, manuelinas, barrocas e maneiristas.
A igreja matriz demonstra o apego firme às proporções, e robustez próprios das construções românicas, e são lindíssimas as fachadas quinhentistas da velha Rua de Dentro da Vila, e da Rua Beato Francisco Pacheco, jesuíta Limiano, que depois de uma estadia no Brasil no séc. XVI. acabou como mártir no Japão: a sua imagem está na Igreja Matriz. Ao longo da simpática Av. dos Plátanos, pode-se ver o Teatro Municipal Diogo Bernardes e o museu de Arqueologia e Arte Sacra, instalados no Convento do Ordem Terceira, a Avenida termina na capela de Nossa. Sr.ª da Guia, que dá o nome à ponte nova. A terra de Ponte de Lima deve o seu nome à ponte de pedra que dava o passo através do Lima. Construída pelos romanos para ligação da via militar que, de Braga pelo território dos Límicos, ia ter a Astorga, por aqui passavam as centúrias que mantinham a «paz de Augusto». Podem-se ver ainda vários marcos miliários dessa estrada por toda a região.
Ao longo do areal, e em toda a vila, é o lugar onde se realizam as grandes festas da Vila: as famosas Feiras Novas que são sempre no terceiro fim-de-semana, ou domingo de Setembro em honra de Nossa Senhora das Dores, e a Vaca das Cordas na véspera do Corpo de Deus. Também quinzenalmente, à segunda feira, realiza-se mais antiga feira do país, com foral de D. Teresa, desde 1125. Chamava-se a feira mãe.
Todo este concelho está povoado de solares, que constituem um legado patrimonial de grande importância.
Situada entre as serras do Marão e do Alvão, Vila Real, aguarda o visitante, entre exemplares de arquitectura tradicional contactos com a natureza, e boa hospitalidade. Conhecida no séc. XVII como a “Corte de Trás-os-Montes, tem alguns edifícios religiosos de interesse histórico que merecem uma visita. Dentro da cidade pode visitar a Casa de Diogo Cão, a Sé Catedral, o Pelourinho, a casa dos Marqueses de Vila Real, e ainda o Jardim da Carreira, com as suas árvores seculares, fonte, pedras de armas, coreto e o busto de Camilo Castelo Branco.
Toda a região à volta da cidade é de grande beleza natural e vale a pena um passeio nas Serras do Marão e do Alvão. Existem vários indícios desta região ter sido habitada por povos do Neolítico, culturas castrejas e por romanos, e não se deve perder uma visita ao santuário rupestre de Panóias.
Quando chegamos à Beira Litoral vamos até Óbidos. Esta vila muralhada, situada perto das Caldas da Rainha, tornou-se num lugar muito animado onde existem inúmeros lugares de interesse a visitar, e muitas coisas para fazer. A Romaria de Santo Antão, a Procissão do Senhor dos Passos, a Feira de Santa Iria, a famosa Batatada ou festas de Sant’Ana, os festivais de música, e os acontecimentos culturais permanentes, aliados ao riquíssimo património fazem de Óbidos um excelente lugar a descobrir.
Muito mais a Sul, as Ilhas dos Açores aguardam o viajante numa bruma encantada que parece sair das profundezas arcaicas do tempo, entre o perfume das hortênsias, as encostas talhadas a pique, o azul a perder de vista e um património tanto natural como humano que as tornam um paraíso para quem as visita. Destas nove ilhas do Atlântico, destacamos na Ilha Terceira, a cidade de Angra do Heroísmo, destruída pelo terramoto de 1980 e de tal maneira bem reconstruída que foi classificada pela Unesco de património da Humanidade.
A cidade que começou a surgir como pequeno burgo medieval protegida por um castelo, é hoje uma cidade cheia de memórias e rica em etnografia e património. Sugerimos que desça a escadinhas através do vale da Ribeira dos Moinhos que ligam o miradouro ao jardim do Duque da Terceira, onde encontrará uma lápide a Almeida Garret que aqui esteve exilado. Na rua Direita encontra o Palácio dos Governadores e a Igreja da Misericórdia à beira-mar. No prolongamento da rua do Galo, a Praça Velha é dominada pelo Paços do concelho. Não faltam locais que não se devem deixar de visitar. A antiga fortaleza de S. João Baptista, o castelo de S. Sebastião a Angra de S. Mateus, o Palacete do Conde de Vila Flor, a alfândega e o antigo cais, Sé Catedral.
São famosas as festas do Espírito Santo e as touradas à corda que acontecem em Julho.
Muito ficou por ver e visitar neste nosso país. Damos só alguns exemplos com a esperança de proporcionar uma nova abordagem à descoberta do que temos de melhor, não esquecendo que é a cultura que nos dá identidade e expressão na relação com o mundo que nos rodeia. O património é também vivido pelas pessoas que nos recebem e no qual se integram diariamente, e quando viajamos através dos solares de Portugal damos maior sentido e significado à relação entre o património, vivências e tradições, ao longo da história.
Fonte: Solares de Portugal (2006), A Qualidade ao Serviço da Tradição
