Ramalho Ortigão, escritor e grande viajante escrevia no séc. XIX. «Nada há no mundo mais saborosamente aprazível para um coração lusitano do que viajar, simplesmente em Portugal». São de facto incontáveis, as cidades, pequenas aldeias, rios, paisagens, jardins, que de Norte a Sul do país merecem a visita das pessoas cujo espírito curioso e atento não desistiram de deixar para trás o quotidiano monótono e partir à descoberta de lugares e experiências ainda desconhecidos.
O nosso passeio começa em Ponte de Lima, descrito desde sempre, como o jardim de Portugal. De facto toda a zona é de uma enorme beleza. Ao longo de um vale entre os montes de Santa Maria Madalena e de Santo Ovídio, corre o rio Lima em tons verdes e azuis a banhar o extenso areal que orla a Vila de mais antiga de Portugal Ponte de Lima. Nas zonas junto às margens, extensas e férteis várzeas são o palco verdejante de inúmeras espécies agrícolas e botânicas, e pretexto para longos e saudáveis passeios.
O ponto de partida é feito a partir do Parque temático do Arnado, e quem gosta de flores não deve perder este lugar, que se insere num projecto de valorização das margens do Lima. Este parque temático permite fazer uma viagem pela história de arte dos jardins, com características de diferentes épocas e plantações de caracter pedagógico, permitindo a constituição de um verdadeiro horto botânico onde se integra uma grande estufa. O período romano foi eleito para a caracterização, dadas as influências culturais deste povo, bem presentes na Vila. Os passeios nesta região são motivo para sensações curiosas e sonhadoras como descreveram tantos poetas aqui nascidos: as paisagens da serra de Arga, a subida ao Miradouro da Vacariça, as memórias históricas dos cruzeiros e capelinhas, os cheiros do entardecer nas margens do Lima, o reboliço das feiras quinzenais.
Para os mais arrojados a Ecovia serve de itinerário numa paisagem protegida de grande beleza até às lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos, o que pode ser feito a pé, de bicicleta ou a cavalo.
Tradicionalmente conhecidos pela hospitalidade, os Limianos conhecem bem a arte de receber em família e o que não falta na região, são esplêndidos lugares para repousar.
Subindo então o Rio Lima, pelo Carregadouro em direcção a Ponte da Barca, poderão vir-lhe à memória os tempos em que por aqui eram carregados os vinhos que depois de chegarem a Viana, eram exportados até Southampton em Inglaterra, para deleite dos ingleses. Chegamos então aos Arcos de Valdevez por caminhos bonitos de paisagens pontuadas de latadas verdejantes e cenas rurais.
Passamos então das verdes paisagens do Minho para os extensos montes para as agrestes e selvagens paisagens de Trás-os-Montes, das mais bonitas regiões de Portugal. Aqui o Parque Natural de Montesinho, situado no extremo Nordeste de Portugal faz fronteira com a Galiza e Castela. Aqui, as paisagens transmontanas deslumbram pelas imponentes serranias, património natural, fauna e flora variadas. A superfície é enorme, e para conhecer os pormenores interiores do Parque, é necessário um veículo. Ao longo do rio Sabor, tomando como referência a estrada que parte de Bragança, passa-se pelas aldeias de Rabal, Portela, França e Montesinho que preservam os modos de vida tradicionais da região. Pequenas casas de xisto e granito, as lousas dos telhados, as genuínas varandas de madeira. Não deixe de ir à Barragem da Serra Serrada na zona de “pastagens de altitude”, a Vinhais, conhecida pelas suas festas de carnaval de raízes pagãs, e à aldeia de Moimenta com a sua bela igreja Matriz. Vindo de Trás-os-Montes chegamos ao Douro. Património da Humanidade, quem não sonha com estas paisagens estonteantes, recortadas em socalcos, rasgadas pelo rio, produtora dos melhores vinhos do mundo, os perfumes do verão escaldante, as lareiras dos invernos gelados, que inspiraram poetas e escritores. Habitado por um povo hospitaleiro, herdeiro de tradições, os passeios são muitos, o património natural é imenso e diverso.
Do lado direito do rio vários são os pontos de interesse. S. Leonardo da Galafura, lugar onde Miguel Torga se inspirava, é um miradouro excepcional de onde se perde de vista os vales e o rio. Segue-se pelo Pinhão, onde o Douro e o rio Pinhão se cruzam e onde pode admirar a ponte construída por Eiffel, não deixe de apreciar os azulejos da estação de caminhos-de-ferro. A partir da aldeia de Pinhão pode ir ainda ao Morro de Santa Bárbara e ao Miradouro de Santa Clara. E por fim a aldeia onde nasceu Miguel Torga, S. Martinho de Antas, merece muito uma visita, e daí pode subir até ao miradouro de Nossa Sr.ª da Azinheira.
Quando se chega às Beiras percebe-se que o coração da Serra da Estrela mantém-se inalterado, com as suas aldeias em granito, uma natureza selvagem e pastores solitários. Classificado como Parque Natural em 1976, é mais lembrado pelos seus períodos de neve, e menos conhecido e visitado noutras épocas do ano, onde se podem fazer belíssimos passeio, apreciar paisagens magníficas e aspectos mais tradicionais das suas populações. As Penhas da Saúde e a Torre, a dois mil metros, são os lugares mais visitados, mas a verdadeira descoberta da Serra faz-se através do planalto central, visitando a aldeia de Sabugueiro, Folgosinho e Linhares da Beira com o seu castelo medieval e casas senhoriais. A proximidade do Zêzere e do Mondego permitem pescarias, banhos, e algumas actividades desportivas. O grande atractivo da região é no entanto sem dúvida, as paisagens esplendorosas da serra, as inúmeras espécies de fauna e flora, os ribeiros, penhascos e horizontes a perder de vista.
Bem mais a Sul, no Alentejo, o Rio Guadiana guarda a fronteira entre moinhos de maré, açudes, margens floridas, paisagens selvagens, riachos e muito ar puro.
Mértola é uma vila situada num ponto alto, onde o Guadiana e a ribeira de Odivelas se cruzam, como uma vigilante silenciosa, foi habitada por fenícios, cartagineses, romanos e árabes e chegou a ser considerada a fortaleza mais poderosa do Ocidente Ibérico.
O castelo é o miradouro ideal e deslumbrante para ver o Guadiana a serpentear, e o aglomerado de casas e ruas da vila que parecem querer acompanhar o curso do rio. A região é rica em curiosidades como o pulo do Lobo, um estreito canal onde as águas se enfurecem e descem em cascata, o enorme complexo abandonado das minas de S. Domingos, e o porto fluvial do Pomarão.
Quem não sonha com horizontes vastos, vales sobranceiros ao mar, perfumes de flores e ambientes desconhecidos. Os mistérios rurais de uma natureza preservada, os encantos místicos das paisagens e planícies em socalcos ou onduladas, os reflexos dos rios. É o que lhe convidamos a fazer. Os Solares de Portugal fazem parte desse sonho, ao proporcionarem a magia e o recolhimento que precisa, para de espírito curioso e disponível apreciar o melhor que a natureza lhe reservou.
Fonte: Solares de Portugal(2006), A Qualidade ao Serviço da Tradição
